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Altermondialismo ou barbárie ?
Par Olivier Bonfond
Mondialisation.ca, 04 février 2010
CADTM 4 février 2010
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Dentro de umas semanas, o lema “Outro mundo é possível” soprará suas dez velinhas. No  entanto, não é tempo para festejos: este movimento se vê na obrigação de colocar as  perguntas apropriadas para obter as respostas adequadas à crise capitalista atual, que  nos distancia, ainda, um pouco mais, dessa sociedade tão desejada, na qual se  garantiria a justiça social e o respeito à natureza.

Não basta desmascarar o mito para  desarticulá-lo

Mesmo que não haja  motivo algum para festejar, a atual crise capitalista , e  sobretudo sua c
ondução,  fizeram cair as máscaras. Os governos mostraram seu  verdadeiro rosto: os cofres estão vazios quando os movimentos sociais pedem que se  respeitem seus direitos, e, no entanto, quando os donos do capital estão em  dificuldades, claro que os recursos são encontrados  em poucas semanas  –  e a  eles  são outorgados – várias centenas de milhões de dólares. Um número crescente de  cidadãos está se conscientizando de que algo não está funcionando bem e de que se  deveria proceder de “outra maneira”. Por exemplo, segundo uma pesquisa do Instituto  Globscan realizada em 20 países, a porcentagem de pessoas que acham  o sistema  capitalista ainda o melhor sistema possível  passou de 63% para 36% em 2009[1] . Por  outro lado, o movimento altermundista que se desenvolveu entre os anos 1990 e 2000 deu  origem a muitas expectativas . Entre outras coisas fez que se colocasse em julgamento  o neoliberalismo   a nível mundial e  se reivindicasse a necessidade e a possibilidade  de uma alternativa global (“Outro mundo é possível”). Além do mais, as diferentes  lutas sociais que aconteceram em diferentes regiões, especialmente, porém não somente,  na América Latina, nos mostram que “triunfar” é possível e que a palavra “alternativa” não é uma palavra vã.

No entanto, há que ser realista. Esta tendência favorável não é suficiente. Depois de  uma breve “pausa” , no que diz respeito às palavras mais que os atos, a ofensiva  neoliberal ressurgiu com maior intensidade. Em Copenhague, em meados de dezembro de  2009, apesar de uma importante mobilização em torno da questão climática, os  governantes nos recordaram, uma vez mais, que não é a rua que governa. Depois de haver  organizado «o assalto  do século» à vista e com conhecimento de todo mundo , sem  que, apesar dele,  se produzissem  revoltas populares que seriam mais que legítimas,  ficou  muito claro que  às potências financeiras e industriais não lhes ocorrerá deter  sua tão prometedora trajetória… Fome, exclusão, pobreza, desigualdades, destruição  do planeta, desperdício, transtorno climático, todos esses «escândalos» continuaram   propagando-se pelo globo terrestre por falta de vontade política. Em conseqüência, a humanidade segue avançando pelo caminho da barbárie.

Que lugar ocupa o movimento altermundista e a evolução do Fórum Social Mundial (FSM)   nesta dialética? Poderá o FSM continuar desempenhando um papel positivo, e inclusive  determinante, na construção de um mundo de justiça social e respeito à natureza?   Visando alimentar o debate, trago aqui algumas indagações e reflexões.

Como ampliar o desenvolvimento do FSM?

Em grande parte devido ao FSM numerosas organizações puderam reunir-se , aprender a  conhecer-se e trabalhar em equipe. A criação e a consolidação de diferentes redes  internacionais, como também a coordenação entre elas, progrediu notavelmente durante  estes últimos anos e isto é sem dúvida , um dos aspectos mais positivos. No entanto,  ainda se está longe de alcançar a organização e a solidariedade equivalentes às  existentes entre os poderosos deste mundo. Muitas das importantíssimas lutas que se  levam a cabo no planeta não se identificam com o FSM e/ou não fazem parte dele.  Por  exemplo, no México, os zapatistas , que alguns consideram como os precursores do  movimento altermundista, não fazem parte desse movimento. Em conseqüência, nos resta,  ainda, um longo caminho a percorrer a fim de , não só integrar um número maior de  movimentos  no processo do FSM senão, ademais e sobretudo, procurar que esta  integração ou implicação produza um impacto real na dinâmica dos movimentos sociais e suas lutas.

Em 2010, com uns trinta eventos internacionais vinculados ao FSM, uma das prioridades  deveria ser a de procurar que uma maioria de movimentos sociais se converta em atores  do processo do FSM, integrando-o e fazendo-o seu. A partir deste enfoque, o Conselho  Internacional do Fórum propôs um tema comum a todas as atividades que se realizarão em  2010: <<as reações dos movimentos sociais diante da crise>>. Esta estratégia aponta  para recolher experiências e proposições com o fim de centralizá-las e coordená-las no  próximo FSM que terá lugar em 2011, em Dakar, Senegal, com a esperança de que esta  edição do evento constitua um novo ponto de partida para o movimento e suas ações.  Veremos  se isto é possível…

Como fazer para que o processo do Fórum seja mais atrativo?

Ao contrário do que divulga o discurso dominante, o FSM continua sendo um processo  interessante e possui aspectos positivos indiscutíveis. No entanto, sob pena de perder  a legitimidade e estancar em uma repetição de encontros, agradáveis ainda que  estéreis , o FSM terá que resolver uma série de importantes deficiências e  contradições. Em primeiro lugar, continua sendo fundamental popularizar as  alternativas e fazer com que sejam conhecidas. O lema <<Outro mundo é possível>>   cumpre já dez anos e no entanto na atualidade, a maioria da população mundial segue  todavia impregnada de uma lógica de fatalidade e medo. E isto por múltiplas razões,  muitas das quais são externas à evolução do FSM, no entanto, seja o que for, ainda não  se tem conseguido o objetivo de demonstrar  que não é nem irrealista nem utópico o  desejo de construção de um mundo melhor. De modo que, temos de continuar com o  trabalho de sensibilização e os esforços para que estes foros sejam verdadeiramente  populares e estejam vinculados às preocupações e às lutas reais dos trabalhadores e  trabalhadoras. Em segundo lugar, definitivamente temos que incrementar a coerência dos acontecimentos  promovidos pelo FSM como tal. Os graves erros cometidos no Fórum Social de Nairóbi[2] causaram um impacto muito negativo em um bom número de cidadãos e organizações fazendo-os perder a confiança no movimento altermundista. É lógico que, em cada Fórum Social sempre teremos erros, falhas e contradições, porém, o importante é aprender com os  erros do passado e fazer todo o possível para neutralizá-los ao máximo, a fim de que o  Fórum Social Mundial seja um exemplo de coerência , uma frente de inspiração , um  espaço onde se vislumbre  e se experimente a alternativa. A propósito, é obvio que os  cidadãos , as ONGs e os movimentos sociais que se identificam com a mudança , deveriam  incluir a alternativa em suas análises , porém, além disso , deveriam integrá-la em suas experiências e seus atos. É evidente que Belém constituiu um salto qualitativo com relação a Nairóbi e os preparativos do Fórum Social de 2011, em Dakar, parecem ir por um bom caminho, mas como não podemos estar seguros, devemos ficar atentos, sem alimentar desconfiança. Muitos estimam que um fracasso em 2011 seria fatal para os movimentos sociais africanos e para o movimento em si. E talvez estejam certos… Finalmente, deve-se procurar que o FSM se oriente mais pela ação. O debate, a análise e a elaboração de alternativas constituem etapas necessárias, no entanto estas deveriam desembocar em ações concretas. O FSM deveria ser capaz de fazer frente a esta crítica e concentrar-se mais na construção da alternativa que em ser sua <<vitrine>>. Recordemos aqui que os poderosos temem antes de tudo, não tanto o combate das idéias que « flutuam no ar» mas as ações organizadas e a colocação em prática de tais idéias.

Como fazer para que o processo de evolução do FSM siga radicalizando-se?

A partir da crise que explodiu em 2008 e especialmente depois do último Fórum Social  de Belém, em janeiro de 2009, ficou muito claro que o processo está se radicalizando.  Atualmente, algumas opiniões, minoritárias e inclusive refutadas já há alguns meses, têm cada vez mais aceitação, como por exemplo, o fato de que o FSM deva ser , antes de tudo, um espaço útil para os movimentos sociais e facilitar a ação. Isto tem implicações concretas, sobretudo no marco do Conselho Internacional, o qual decidiu empreender uma profunda reflexão a propósito da índole e dos objetivos do FSM[3]. Por outro lado, pela primeira vez desde o começo do FSM, vários movimentos sociais opinaram de maneira categórica sobre o tema do capitalismo. Diversas declarações constituem uma prova disto, por exemplo, da Assembléia dos movimentos sociais (AMS) no FSM de Belém : <<Para enfrentar a crise é necessário ir à raiz do problema e avançar o mais  rapidamente possível até a construção de uma alternativa radical que acabe com o sistema capitalista e o sistema patriarcal [4]Esta radicalização é muito positiva , sobretudo para  AMS, cuja evolução esteve vinculada à do FSM e cuja característica é a de ser um espaço aberto para o estabelecimento de agendas comuns, além de perseguir o objetivo de uma luta compartilhada contra o capitalismo em sua fase neoliberal, imperialista e militar (de guerra global e permanente) e contra o racismo e o patriarcado. Se para  AMS, as alternativas de justiça social e respeito da natureza, somente poderão implementar-se  no marco de uma ruptura com o sistema capitalista , isto não impede uma colaboração frutífera com as ONG as quais se situam dentro de outra perspectiva ao facilitar o diálogo com as instituições financeiras internacionais ou ao preconizar um capitalismo humanista. A falta de consenso a propósito da alternativa que se pretende construir  não é necessariamente um indício de obstrução. De fato, é possível colaborar de forma ampla e unitária no caso de reivindicações pontuais como o imposto  Tobin, ou inclusive , a regulação do sistema financeiro mundial . No entanto, não se deve facilitar já que não se está demasiado longe da <<   dialética da conquista parcial>>. A História nos tem ensinado, em numerosas ocasiões, que a capacidade de adaptação  e recuperação do sistema capitalista é imensa. Neste contexto, o importante é que estas reivindicações parciais se inscrevam em uma perspectiva de transformação radical da sociedade e não em uma ótica de melhoramento do sistema atual , que já deu provas suficientes de sua natureza destrutiva do humano e do ecológico. Para o CADTM como para outros movimentos sociais, tal posição também é sinal de coerência.

Ninguém pode adivinhar o futuro, assim como tampouco ninguém pode predizer o destino da humanidade. No entanto, há duas coisas sobre as quais podemos estar seguros. Por um lado, a ampliação, a coerência e o nível de radicalização na evolução do FSM determinaram em grande parte a função que este haverá de desempenhar. Por outro lado, FSM ou não, os movimentos sociais, os oprimidos, os explorados, os excluídos, seguiram lutando por seus direitos e sua dignidade. O que verdadeiramente importa é fazer que essas lutas triunfem. E no melhor dos casos o FSM poderá constituir-se em uma ferramenta a serviço das mesmas.

Texto original en francês :  http://www.mondialisation.ca/index.php?context=va&aid=16816

Traduzido por Ana Mary da Costa Lino Carneiro

 

 

[1] Michael R. Krätke, « La iglesia capitalista pierde fieles », http://www.sinpermiso.info/textos/i…

[2] Para mais informações sobre o balanço do FSM de Nairobi : http://www.cadtm.org/Contribucion-colectiva-a-los

[3] Uma primeira etapa importante será Porto Alegre em janeiro de 2010, onde um debate estratégico de três dias será organizado sobre o balanço e as perspetivas do processo como um todo. Para mais notícias sobre esta atividade: http://www.forumsocialmundial.org.b…

[4] Para Ler a declaração AMS: : http://www.cadtm.org/No-vamos-a-pagar-por-la-crisis-que

e para uma análise das outras declarações e do FSM de Belém, ler o artigo “o salto do FSM”, entrevista Éric Toussaint por Pauline Imbach, http://www.cadtm.org/O-segundo-sopro-do-Forum-Social

Olivier Bonfond é economista e membro do Comité para a Anulação da Divida do Terceiro Mundo, CADTM.

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