Print

Mísseis contra o gasoduto Turkish Stream
Par Manlio Dinucci
Mondialisation.ca, 07 décembre 2015
ilmanifesto.info
Url de l'article:
https://www.mondialisation.ca/misseis-contra-o-gasoduto-turkish-stream/5494119

Os mísseis Aim-120 Amraam, lançados pelo F-16 turco (todos dois Made in USA) não foram dirigidos somente contra o caça-bombardeiro russo mobilizado na Síria contra o chamado Estado Islâmico, mas contra um objetivo mais importante: o Turkish Stream, o gasoduto projetado que levaria o gás russo à Turquia e de lá à Grécia e outros países da União Europeia

O Turkish Stream é a resposta de Moscou ao torpedeamento, por Washington, do South Stream, o gasoduto que, contornando a Ucrânia, levaria o gás russo até Tarvisio (na região italiana de Udine) e de lá à União Europeia, com grandes benefícios para a Itália, inclusive em termos de emprego. O projeto, lançado pela empresa russa Gasprom e a italiana ENI depois ampliado à alemã Wintershall e à francesa EDF, já estava em fase avançada de realização (a Saipem da ENI já tinha um contrato de dois bilhões de euros para a construção do gasoduto através do Mar Negro) quando, depois de ter provocado a crise ucraniana, Washington lançou aquilo que o New York Times definiu como “uma estratégia agressiva visando a reduzir fornecimentos russos de gás para a Europa”.

Sob pressão estadunidense, a Bulgária bloqueou em dezembro de 2014 os trabalhos do South Stream, enterrando o projeto. Mas ao mesmo tempo, embora Moscou e Ancara estivessem em campos opostos no que concerne à Síria e ao chamado Estado Islâmico, a Gasprom assinou um acordo preliminar com a companhia turca Botas para a realização de um duplo gasoduto Rússia-Turquia através do Mar Negro. Em 19 de junho Moscou e Atenas assinaram um acordo preliminar sobre a extensão do Turkish Stream (com uma despesa de dois bilhões de dólares a cargo da Rússia) até a Grécia, para torná-la a porta de entrada do novo gasoduto na União Europeia.

Em 22 de julho Obama telefonou a Erdogan, pedindo que a Turquia se retirasse do projeto. Em 16 de novembro, Moscou e Ancara anunciaram, ao contrário, próximos encontros governamentais para lançar o Turkish Stream, com uma envergadura superior à do maior gasoduto através da Ucrânia.

Oito dias mais tarde, a derrubada do caça russo provocou o bloqueio, senão a liquidação, do projeto. Seguramente, em Washington, festejaram o novo acontecimento. A Turquia, que importava da Rússia 55% de seu gás e 30% de seu petróleo, se encontra de fato prejudicada pelas sanções russas e corre o risco de perder o grande negócio do Turkish Stream.

Quem, então, na Turquia, tinha o interesse de abater voluntariamente o caça russo, sabendo quais seriam as consequências? A frase de Erdogan – “Nós não queríamos que isto acontecesse, mas aconteceu, espero que uma coisa desse tipo não acontecerá mais” -, implica um cenário mais complexo do que o oficial. Na Turquia há importantes comandos, bases e radares da Otan sob o comando estadunidense. A ordem de abater o caça russo foi dada dentro desse quadro.

Nesse ponto, qual é a situação na “guerra dos gasodutos”? Os Estados Unidos e a Otan controlam o território ucraniano por onde passam os gasodutos Rússia-União Europeia, mas a Rússia pode hoje contar menos com eles (a quantidade de gás que eles transportam caiu de 90% a 40% da exportação russa de gás para a Europa) graças a esses dois corredores alternativos. O Nord Stream que, no Norte da Ucrânia, leva o gás russo à Alemanha: a Gasprom quer agora duplicar, mas o projeto é contestado na União Europeia pela Polônia e por outros governos do Leste (principalmente os ligados tanto a Washington como a Bruxelas). O Blue Stream, administrado paritariamente pela Gasprom e a ENI, que no sul passa pela Turquia e por este fato não está isento de risco. A União Europeia poderia importar bastante gás a baixo preço do Irã, com um gasoduto já projetado através do Iraque e da Síria, mas o projeto está bloqueado (não por acaso) pela guerra desencadeada nesses países pela estratégia dos Estados Unidos e da Otan.

Manlio Dinucci

Manlio Dinucci : Jornalista, geógrafo e cientista político, colunista do jornal italiano Il Manifesto; tradução de José Reinaldo Carvalho para o Blog da Resistência

 

Avis de non-responsabilité: Les opinions exprimées dans cet article n'engagent que le ou les auteurs. Le Centre de recherche sur la mondialisation se dégage de toute responsabilité concernant le contenu de cet article et ne sera pas tenu responsable pour des erreurs ou informations incorrectes ou inexactes.