Print

Moby Prince, a pista estadunidense
Par Manlio Dinucci
Mondialisation.ca, 19 avril 2016
ilmanifesto.info
Url de l'article:
https://www.mondialisation.ca/moby-prince-a-pista-estadunidense/5520769

« Mayday, Mayday[1], Moby Prince, nós estamos em colisão, e pegamos fogo! Necessitamos de ajuda! »: esta foi a dramática mensagem transmitida há 25 anos às 22:25:27 de 10 de abril de 1991, pela balsa Moby Prince, que se chocou, no ancoradouro do porto de Livorno, com o petroleiro Agip Abruzzo. O pedido de ajuda não foi escutado: morreram 140 pessoas, depois de terem esperado socorro em vão, durante horas. A demanda por justiça também não foi ouvida: há 25 anos, as famílias buscam em vão a verdade.  Após três investigações e dois processos. Contudo, a verdade emerge imperiosamente dos fatos.

Naquela noite, havia no ancoradouro de Livorno um  intenso tráfego de navios militares e militarizados dos Estados Unidos, que traziam de volta à base estadunidense de Camp Darby (limítrofe ao porto) uma parte das armas utilizadas na primeira guerra do Golfo.

Havia também outros misteriosos navios.  O Gallant II (codinome Theresa), navio estaduidense militarizado que, imediatamente após o acidente, deixa precipitadamente o ancoradouro de Livorno. O 21 Oktoobar II da empresa Shifco, cuja frota, doada pela Cooperação italiana à Somália, oficialmente para pesca, foi utilizado para o transporte de armas estadunidenses e de dejetos tóxicos inclusive radiativos à Somália e para abastecer de armas a Croácia em guerra contra  a Iugoslávia.

Por ter encontrado as provas desse tráfego, a jornalista Ilaria Alpi e seu cinegrafista Miran Hrovatin foram assassinados em 1994 em Mogadiscio numa emboscada organizada pela CIA com a ajuda da rede Gladio e dos serviços secretos italianos.

Com toda probabilidade, na noite de 10 de abril, no ancoradouro de Livorno estava em curso o transbordo de armas dos Estados Unidos que, ao invés de voltar a Camp Darby, foram secretamente enviadas à Somália, à Croácia e a outras zonas, sem excluir os depósitos da Gladio na Itália (ver o blog de Luigi Grimaldi sobre o Moby Prince[2]). Quando ocorre a colisão, os que dirigem a operação – certamente o comando estadunidense de Camp Darby – tenta imediatamente apagar todas as provas. Isto explica uma série de « zones de sombra »: o sinal do Moby Prince, a apenas duas milhas do porto, que chega com muitas interferências sonoras; o silêncio da Rádio Livorno, geradora pública de telecomunicações, que não chama o Moby Prince; o comandante do porto, Sérgio Albanese, « ocupado com outras comunicações de rádio », que não orienta o socorro e imediatamente depois é promovido a almirante por méritos; a falta (ou mais ainda, o desaparecimento) dos traçados de radar e imagens de satélites, em particular sobre a posição do Agip Abruzzo, que apenas tinha chegado do Egito a Livorno em um tempo estranhamente recorde (quatro dias e meio em vez de 14); os roubos na balsa sob sequestro, onde desapareceram os instrumentos essenciais às investigações. Ao ponto de fazer parecer que o Moby Prince sofreu um acidente banal, inclusive por responsabilidade do comandante.

As famílias das vítimas conseguiram no presente obter a instituição de uma comissão parlamentar de inquérito, não apenas para fazer justiça aos seus parentes, mas para « fechar um capítulo indigno na história italiana ». Capítulo que permanecerá aberto se a comissão limitar como habitualmente  a investigação ao exterior de Camp Darby, a base estadunidense que está no centro do massacre do Moby Prince. A mesma que esteve sob investigação dos juízes Casson e Mastelloni no inquérito sobre a organização golpista « Gladio ». Uma das bases dos  EUA e da Otan que – escreve Ferdinando Imposimato, presidente honorário da Corte  Suprema de Cassação – forneceu explosivos para os massacres, desde o de Piazza Fontana aos de Capaci e Via d’Amelio[3]. Bases nas quais « se reuniam membros do terrorismo mais obscuro, oficiais da Otan, mafiosos, políticos italianos e maçons, às vésperas dos atentados ».

O Mayday do Moby Prince é o Mayday de nossa democracia.

Manlio Dinucci

 

Publicado em italiano : Il Manifesto

Traduzido por José Reinaldo Carvalho para Resistência.

 

[1] « Mayday » é uma expressão utilizada internationalmente nas comunicações de rádio e telefônicas para sinalizar que um avião ou um barco está acidentado.

[2] http://grimaldimobyprince.blogspot.fr/2009/04/moby-prince-dietro-il-naufragio.html

[3] Atentados de : Piazza Fontana em Milão, em dezembro de 1969 (17 mortos, 88 feridos): Capaci (autopista de Palermo), contra o juiz Falcone em maio de 1992 (assassinado com sua mulher e três agentes de sua escolta) ; Via d’Amelio em Palermo, em julho de 1992 contra o juiz Borsellino (assassinado com os cinco agentes de sua escolta)

– See more at: http://www.resistencia.cc/manlio-dinucci-moby-prince-a-pista-estadunidense/#sthash.GTFmiRIG.dpuf

 

Manlio Dinucci é jornalista e geógrafo italiano

Avis de non-responsabilité: Les opinions exprimées dans cet article n'engagent que le ou les auteurs. Le Centre de recherche sur la mondialisation se dégage de toute responsabilité concernant le contenu de cet article et ne sera pas tenu responsable pour des erreurs ou informations incorrectes ou inexactes.